20070501

como está sr. Zé mário

Como está sr. Zé mário?

Na noite passada fui assistir a mais um dos seus concertos. À entrada dos bombos e tambores já se me arrepiava a pele, devolviam-me a emoção da canção de abril. Quando eu era apenas um bebé, contam-me porque eu já não devo lembrar-me, que o meu pai me embalava ao sabor daquela canção do Zeca “canta camarada”.

Diga 33

Pois é verdade, tenho a idade de abril, terá a minha culpa também?

Sou assim, feita dessa massa etérea, composta por fáceis entusiasmos e emoções à flor da pele. Acredite que saí daquele edifício configurado para caber no século XXI com a sensação da esperança renovada, contagiada pelo tom panfletário, e acredite que por momentos vi renascer das suas palavras um zeca, um mário viegas, um léo ferré, à medida que, ganhando-me o êxtase, pensava que os comícios teriam muito a ganhar se tomassem as gentes assim, desta forma, por dentro, depois de magnificamente se demolirem os edifícios que nos tolhem, identificadas a hipocrisia e a modorra que nos embalam.

Porém somos lixo, sr. Zé mário, somos apenas lixo, o que de nosso naquelas paredes? ou no pasto em que nos refastelamos antes de acorrer faustosos a um encontro revolucionário, que deixa um lastro de agastado?

Digo 33

E acredite que mesmo trazendo pouco dessa voz nos momentos pálidos do quotidiano, estou disposta a segui-lo, dir-me-á o sr. para onde? Devo desfazer-me dos meus bens (estão no prego como os de todos aqueles que um dia pensaram pertencer a uma confortável classe média!)? Devo deixar de votar? E fingir, fingir que ELES não existem? Que ELES são apenas outros que vivem à sombra da nossa vida? E que não resistirão ao nosso desapego? Devo fingir que não tenho medo da morte, porque lá dentro ela dá sentido à vida?

Devo gritar que acredito, que ainda acredito, que me odeio porque sou lixo, mas que estou disposta a varrer-me daqui, a varrer-vos a todos vós, deixando os outros, aqueles, ELES sós, com um poder vazio entre as mãos...

Obrigada, sr. Zé mário

Pela dança de gestos, pela voz, pelas palavras que hoje trago, que insistem, apesar tudo,
Existo