20070908

nocturna no hemisfério

Os dias estenderam-se até ali mais ou menos acesos, mas a notícia da tarde devolveu-lhe alguma palidez ao rosto. Lira saiu da sala, de mansinho e foi tratar da roupa para o resto da viagem.
Passava as camisas dele, com uma precisão e langor estranhos, como se toda a vida tivesse sido pautada por esse labor, parte integrante de um sentido de vida. Passava voltada para a janela do terceiro piso e por vezes o canto do bem-te-vi roubava-lhe um sorriso quase desolado. Quanto mais olhava a camisa, nesse ponto absorto a que se votara, mais se estreitava à ideia desse seu lugar monótono no mundo
talvez nada seja por acaso, hesitava ela entre o sorriso sombrio ou a serenidade distraída
a noite chegou depressa e ela prosseguiu no compasso, empilhando a roupa que dobrava simetricamente bem
pousou o ferro e foi beber um copo de água, lavou de seguida o copo e entreteve-se a ver a água que sumiu em rotação inversa, e pela primeira vez não estranhou o contrário.