20100324

Gosto de dobrar meias

Gosto de dobrar meias, disse meia absorta enquanto tentava focar o caracol mínimo que escalava a parede da garagem rumo ao topo.

Aprendi com a minha avó. Adorava olhá-la, rondava-a como um gato, roçando devagarinho a bata azul com flores arroxeadas, ela de sorriso enrugado, franzindo o sobrolho, coxeando um pouco, empurrava com a perna a grande bacia de roupa, erguia os braços moles sobre o pátio frio que repentinamente se tomava de sombras, as lesmas bichando sobre as paredes de musgo, aos mãos pálidas e petrificadas, a roupa molhada pesando no balde, e eu rodando princesa e gato a cantarolar baixinho, olhando-a surpresa sem entender a dor que se desprendia dos braços, baixinho, rodando.

Sentava-se no banquinho velho que o avô havia feito, num canto da cozinha, em qualquer canto, finda a lida, e gemia, como num ritual. A dor, essa seguia com seus gestos lentos. Às vezes rezava, às vezes ensinava-me a rezar, num murmúrio, era a única pessoa que rezava lá em casa - velado sacrilégio esse de apelar a forças divinas que ajudem a purgar a dor.

Gosto de dobrar meias.